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Assédio: O Elefante na Sala de Muitos Estúdios


Nossos corpos são políticos. O piercing nos reafirma isso diariamente. Arrisco dizer que toda ação e relação são políticas. Nossos afetos, nossos trabalhos, os auxílios que prestamos, nossos diálogos. Quando falamos de política é preciso entender que existe um sistema, um conjunto de atributos que formam a base social definindo padrões e, com eles, privilégios e opressões. E, aqui, também entra o assédio.

Existem diversas maneiras, formas e formatos onde o assédio pode estar presente. Quando o profissional faz com que a cliente retire mais roupas do que o necessário para uma perfuração ou tattoo, quando a foto destaca mais o corpo da cliente que o trabalho em si, quando a perfuração íntima é mais barata para pessoas com vulva quando realizada por homens, quando existem comentários sexuais ou degradativos sobre a cor, formato ou textura do corpo de alguém, e esses são apenas alguns exemplos. Quando um chefe usa da hierarquia para gritar ou humilhar um funcionário, duvida de sua palavra ou faz acusações sobre produtos, prefere trabalhar sempre com pessoas que representem seus gêneros (uma mulher feminina, um homem másculo), faz com que ele acumule funções sem a devida remuneração, coíbe o uso de cortes de cabelo ou estilo roupas por preconceito, obriga o funcionário a ir contra seus princípios e trabalhar com determinados insumos com a ameaça de que se não o fizer ele será mandado embora. Esses são alguns outros exemplos (ainda que institucionalizados).

O assunto é amplo - primeiro por realmente existirem diversos tipos de assédio (como sexual, moral, virtual e psicológico), segundo pois precisaríamos avaliar cada um deles e pensar em soluções tanto para clientes quanto entre profissionais. O que posso deixar nesse texto é um convite à reflexão: se tudo é político, precisamos entender o quanto nossas posições estão perpetuando privilégios e colaborando com opressões. O quanto conseguimos de fato construir equidade sem nos colocar nos papéis de salvadores? Como não sexualizar o corpo de uma mulher? Como ser um aliado sem querer protagonismo? Como evitar comentários sobre a estética ou estilo de vida da outra pessoa? Como entender que o piercing nunca foi sobre pessoas dentro do padrão? Como compreender que a história do piercing não começa na europa e era um momento ritualístico de sociedades não brancas? Como trazer esses ensinamentos para os nossos posters e feeds, atendimento e acolhimento?

O assédio não vai acabar enquanto não entendermos as estruturas sociais de poder. Enquanto houverem profissionais homens que tocam além do necessário os nossos corpos na hora do procedimento, enquanto uma pessoa negra for menosprezada ao entrar na sua loja, enquanto uma mulher sapatão que não performa feminilidade for preterida para trabalhar para você, enquanto houver uma ultraexposição do corpo feminino como produto, enquanto o afeto entre duas mulheres ou dois homens for um problema, enquanto acharmos que determinado cliente não tem dinheiro suficiente para comprar conosco, enquanto acreditarmos que piercing seguro não deve ser para todos.

Somos seres sociais e políticos.

Primeiro a gente deve refletir. Depois, agir.





A opinião do colunista não é necessariamente uma opinião do Coletivo Sala Solidária.

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Nina Falci

Perfuradora Corporal no Ao Cubo (Minas Gerais, Brasil)


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